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Doutel de Andrade

A trajetória política do líder trabalhista Doutel de Andrade deve ser lembrada como fonte de inspiração às novas gerações e como forma de contribuir para o resgate e preservação da memória histórica brasileira.

Em mais de 40 anos de vida pública, Doutel foi exemplo de luta e coerência. Traços da sua personalidade além de características da sua atuação fizeram-no figura singular no cenário político de Santa Catarina e do Brasil.

A visão democrática sempre pautou a vida de Doutel como cidadão, advogado, jornalista, dirigente partidário e parlamentar. Sua formação humanista levou-o cedo à convicção de que uma democracia substantiva deveria transceder o formalismo institucional para lastrear-se na justiça social, assumindo um crescente caráter socializante, até desaguar no socialismo democrático.

Doutel exercia a política com paixão e, ao mesmo tempo, com sábio equilíbrio. Veemente e combativo jamais resvalou, porém, para a vulgaridade ou a ofensa pessoal. Usava a argumentação inteligente, o diálogo, a persuação, a articulação hábil, como métodos de atuação.

Culto conhecedor profundo da realidade político social, arguto observador das relações humanas, encantava a todos com a sua brilhante oratória e seu incomum talento para contar histórias, sempre permeadas de ironia e fino humor.

A formação intelectual e a vocação jornalista.

Desde muito moço afeiçoou-se à leitura. Lia compulsivamente. Ainda estudante de direito, iniciou-se no jornalismo. O estilo elegante, o texto claro, a capacidade de análise, a sagacidade critica, fizeram-no destacar-se profissionalmente como jornalista nos anos 40 e 50. Trabalhou nos jornais O Globo. Diretrizes, Diário da Noite e no O Jornal, líder dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, onde assinou por 20 anos, importante coluna política, reproduzida pela demais publicações do grupo e na Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

A carreira política.

As reflexões e o envolvimento político decorrentes da atividade jornalista conduziram-no à ação partidária do PTB.

Em 1949 Doutel participou ao lado de João Goulart, Alberto Pasqualini, Leonel Brizola e outros nomes do trabalhismo da campanha eleitoral que levaria Getúlio Vargas de novo ao Palácio do Catete.

Eleito Getúlio, vai trabalhar com Jango no Palácio do Catete. Sua rápida ascensão leva-o ao cargo de 1º secretário do PTB. Quando Jango assume o Ministério do Trabalho em 1953, Doutel integra o seu Gabinete, passando em seguida a acumular com a direção da Rádio Mauá, pertencente àquela pasta.

Em agosto de 1954 vivenciou junto a João Goulart os acontecimentos que culminaram, após grave crise política institucional, com o suicídio de Vargas. Foi o primeiro a tomar conhecimento, ao lado de Jango, da Carta Testamento, documento histórico que até hoje inspira a nacionalidade. Tais fatos reforçaram-lhe a crença na necessidade urgente de prosseguir na luta em favor dos trabalhadores brasileiros e da soberania do país.

Depois de integrar a comitiva que acompanhou o corpo de Getúlio para São Borja, segue com Jango para Montevidéu. Voltou ao Brasil para participar dos entendimentos entre PTB e PSD, que resultariam na vitória de Juscelino Kubistcheck nas eleições presidenciais de 1955, com Jango como vice-presidente. Neste mesmo ano Doutel assume a secretaria geral do PTB. As tarefas partidárias consumiram seus melhores esforços, dedicando-se a montar o PTB em todo o país.

A atividade parlamentar e partidária.

Em 1958, Doutel iniciou sua vida parlamentar como deputado federal eleito por Santa Catarina, com 28.000 votos conquistados em apenas 28 dias de campanha. Assumiu em seguida a presidência do PTB catarinense. Com atuação dinâmica ampliou e fortaleceu o partido, tornando-o uma vigorosa agremiação que mudou a correlação de forças políticas, criando uma nova realidade no Estado. O novo cenário permitiu-lhe eleger-se em 1960, vice-governador de Santa Catarina, na chapa encabeçada por Celso Ramos. Passou assim a exercer dois mandatos simultâneos, o que era permitido à época, pela legislação eleitoral.

Reeleito Deputado Federal em 1962, caberia a Doutel desempenhar no Congresso atuação relevante como líder da bancada do PTB, e ao mesmo tempo como líder do Governo João Goulart, empossado após a renúncia de Jânio Quadros. A frente dessas representações se destacará nas negociações e nos debates em torno das Reformas de Base.

O golpe militar de 1964, que depõe o Presidente João Goulart, obrigando-o ao exílio, encontra Doutel na linha de frente da resistência. Empreendeu duro e corajoso embate à ditadura instalada no país, tornando-se o líder político do primeiro bloco de oposição ao governo militar.

Extintos os partidos políticos em 1965, substituídos pelo bipartidarismo (MDB e ARENA), imposto pelo regime de arbítrio. Doutel ocupa uma das vice-presidências do MDB e lidera expressivo grupo trabalhista que imprime ao partido legitimidade como representante da oposição ao governo ditatorial.

A contundência de sua atuação; a leitura na tribuna da Câmara dos deputados do “Manifesto à Nação” enviado por Jango do exílio; que irritou profundamente os militares; o trabalho ativo na organização da “Frente Ampla”, movimento oposicionista pluripartidário que uniu Jango, Lacerda e Juscelino numa aliança estratégica contra o regime; as freqüentes viagens à Montevidéu para visitar João Goulart; e a perspectiva de sua reeleição com votação expressiva, foram, entre outras, as principais razões que resultaram na cassação do mandato e dos direitos políticos de Doutel por 10 anos em outubro de 1966, pelo Ato Institucional nº 2, um mês antes das eleições daquele ano.

A substituição na Câmara dos Deputados.

Com o afastamento de Doutel, o MDB de Santa Catarina entendeu que deveria apresentar ao pleito eleitoral, uma candidatura que simbolizasse a resistência aos desmandos da ditadura. A escolha recaiu sobre Lígia, sua mulher.

O povo catarinense concedeu-lhe consagradora votação (45 mil votos), para que desse continuidade, na Câmara Federal , à luta de Doutel e do Povo Brasileiro contra o arbítrio e a favor de um país democrático, com justiça e soberania. Lígia teria o seu mandato cassado também 1968, pelo AI 5.

Durante o período de cassação Doutel jamais se desengajou da política. Participou de articulações políticas, de reuniões e eventos organizados pelas oposições, manteve freqüentes contatos no exílio com João Goulart, Brizola e outros companheiros, preparando a reorganização do PTB.

Passados 10 anos, recuperou em 1976, seus direitos políticos e pode retornar às claras suas atividades. Retornou a Santa Catarina para filiar-se ao MDB.

Com a morte de Jango no exílio, Doutel assumiu a incumbência de reorganizar o trabalhismo. Percorre todo o país mobilizando velhos companheiros e sensibilizando novos adeptos. Em 1979 está em posição de luta no “Encontro de Lisboa”, ao qual preside, junto com Brizola, visando impulsionar a reconstrução do PTB.

Passados 10 anos, recuperou em 1976, seus direitos políticos e pode retornar às claras suas atividades. Retornou a Santa Catarina para filiar-se ao MDB.

Com a morte de Jango no exílio, Doutel assumiu a incumbência de reorganizar o trabalhismo. Percorre todo o país mobilizando velhos companheiros e sensibilizando novos adeptos. Em 1979 esta em posição de luta no “Encontro de Lisboa”, ao qual preside, junto com Brizola, visando impulsionar a reconstrução do trabalhismo, ante as perspectivas de democratização do país.

A reorganização do PTB.

Do “Encontro de Lisboa” Doutel trouxe a tarefa de difundir os princípios trabalhistas ali definidos, que deveriam dar orientação básica a nova fase do PTB, agora adaptado às modernas demandas da sociedade brasileira. Brizola ainda no exílio, Doutel saiu novamente pelo país, dando continuidade ao trabalho de reconstrução partidária. Em meio a esta tarefa assim se expressou: “ Não estamos a idealizar um PTB sazonal que se agite somente em período eleitorais, mas como ponto de encontro de quantos – nas fábricas, nos escritórios, nas repartições públicas, nos quartéis, nos gabinetes de estudo, nos campos e na cidades – pensam o Brasil e aspiram o surgimento não só de um novo tipo de sociedade nacional, mas também de um novo tipo de homem brasileiro”.

A força com que emergiria o novo PTB, assustou o governo militar que, através de manobras jurídicas espúrias, infringiu aos petebistas a perda da sigla partidária, entregue então a um grupo dócil ao regime, chefiado por Ivete Vargas.

Brizola denuncia a manobra e lança o PDT como o verdadeiro continuador do autentico trabalhismo brasileiro. Doutel está ao seu lado como vice-presidente do partido. Nessa função e depois na presidência do diretórios do PDT ao lado de companheiros dos diversos estados.

Dos seus esforços, de sua experiência e dedicação passaram a depender em larga medida os avanços orgânicos do PDT. A eficiência do trabalho de organização de Doutel à frente do partido resultaria, ao longo do tempo, no seu crescimento contínuo e na sua definitiva consolidação.

A continuação da luta até a morte.

Nas eleições de 1982 concorreu novamente a uma cadeira de deputado federal por Santa Catarina. A legislação eleitoral restritiva, cheia de obstáculos, imposta pelo regime militar, impediu o sucesso eleitoral do PDT e de sua candidatura.

Em 1989 Doutel volta a ser candidato a ser deputado federal desta vez pelo Rio de Janeiro e assume a liderança do PDT na Câmara.

No ano seguinte é eleito primeiro suplente de Darcy Ribeiro ao Senado, mas não chega a assumir devido aos problemas de saúde que levaram à morte, em 07 de janeiro de 1991, aos 70 anos de idade.

No seu sepultamento Leonel Brizola assim se referiu ao companheiro: “O maior desafio será preencher o vácuo deixado por Doutel, que trazia toda a experiência do trabalhismo, a corrente mais carregada da história”.

Doutel de Andrade marcou sua vida pela coerência, lealdade e dedicação às causas populares. Foi um incansável combatente da democracia. Sua irretocável trajetória de homem público o coloca em lugar de honra na história brasileira.


 
 
 
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