07/12/09 . Entrevista - Ruy Dorval Lessmann
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Aos 52 anos, ele é o atual presidente do PDT- Partido Democrático Trabalhista em Jaraguá do Sul-SC. Ruy Dorval Lessmann, já foi suplente e em 2005 ocupou uma vaga na Câmara de Vereadores por 10 meses, quando foi líder do governo. Começou a trabalhar como funcionário do Legislativo em 1979, portanto, conhece os caminhos mais do que ninguém.Sem meias palavras, faz um apanhado dos últimos 30 anos em Jaraguá do Sul. Entre uma gargalhada e momentos de muita introspecção, durante mais de 2 horas, respondeu todas as perguntas.
1 – De 1979 a 2009 são 30 anos de Legislaturas. O que mudou no período?
RL – A primeira coisa que precisa ser dita é com relação ao comportamento e seriedade no trato da coisa pública. Em outros tempos, as disputas eram entre PMDB e Arena, se fazia política representativa. Hoje em dia, a coisa é feita sorrateiramente. O mesmo que lhe dá tapinhas nas costas, crava-lhe o punhal. A política, em muitos casos, vem sendo feita pelos emergentes ratos de porão.
2 – São quase 8 legislaturas. Qual delas foi a melhor na sua opinião?
RL – Apesar o esforço que querem demonstrar a comunidade, hoje a Câmara de Vereadores é fraca, não faz o dever de casa. Não legisla, não fiscaliza e atrelam votações aos interesses políticos e particulares. Posso citar exemplos como: o transbordo do lixo segundo se sabe custa perto de 8 milhões de reais por ano, a questão do estacionamento rotativo sem definição, do transporte coletivo que não se tem uma solução, a saúde pública, aquela que deve atingir o social, ou seja, aquele cidadão mais necessitado, o mais humilde esta beirando ao caos, a infra-estrutura ainda não disse a que veio, falta de creche que a cada ano que passa é o mesmo problema com a dona de casa sem ter onde deixar suas crianças e outras dezenas de questões. Hoje temos uma Câmara de Vereadores que se reúne para marcar outra reunião. Assuntos polêmicos e a efetiva fiscalização passam longe do prédio da Câmara, há fatos que mereciam a imediata instalação de CPI, há um cheiro de omissão ou é falta de outra coisa que ainda não sabemos. De outra banda, e sem desmerecer as demais legislaturas, destaco como atuantes a composição da Câmara das Legislaturas de 1977 a 1982 e 1983 a 1988, no mais, alguns casos isolados. Claro que há exceções, vereadores bem intencionados, mas na sua grande maioria usam o Cargo de Vereador como bico, segundo plano e mais recentemente para apadrinhar seus correligionários.
3 – Nos 30 anos de Câmara, qual foi à grande conquista e a maior decepção?
RL - Minha maior decepção foi não ter visto surgirem novas lideranças, ou melhor, não deixaram surgir. Também me cobro muito por não ter conquistado uma cadeira no Legislativo. Assim, apesar da experiência que me foi proporcionada em tantos anos de trabalho, no campo político passei todo esse tempo sem marcar de forma efetiva minha trajetória. Mas de uma forma geral, sempre pude contribuir direta ou indiretamente com ações, projetos de economia para Legislativo, mudanças para melhorar a Casa, projetos que beneficiaram a comunidade, ocorreram de forma indireta por esforço nosso junto aos presidentes, Mesa Diretora e não trago isso como sendo de minha autoria. Trabalhei para que alguns levassem a fama. Me decepciona ver instalado na Câmara em certos momentos, o vereador legislando em causa própria, no interesse pessoal, na promoção política partidária e, se conhecimento os tem, não os dispensam à causa do verdadeiro trabalho do Vereador e pouco comprometimento com a comunidade.
4 – Olhando Jaraguá do Sul hoje, qual o raio X da situação?
RL – Faz algum tempo que o município vem sendo administrado por promessas e planos de governos mirabolantes. Não houve progresso, não houve avanço. Faltam pessoas comprometidas com a gestão administrativa, comprometidas com o povo, com o social, com nossa economia, com projetos de médio e longo prazo. A nossa Jaraguá não se permite mais ser governada sem uma tábua regular, porém, continuada de investimentos, com ações voltadas para sua gente e a contrapartida de quem paga seus impostos. Foi feito muito pouco ou quase nada. Em que pese meu partido ter feito parte da coligação vencedora da última eleição, hoje não é nem consultivo, não participa e nem dá pitacos, portanto, estamos isentos de qualquer culpa.
5 – Na sua opinião o que falta na atual administração?
RL – Falta distribuir responsabilidades, falta liberdade de ação nas áreas do da administração como um todo, de modo a trazer como resultado a boa gestão publica. Comenta-se que tem secretários que não sabem se podem falar sobre determinado assunto, porque o poder é centralizador. Como pode funcionar uma prefeitura onde o poder é centralizado? A solução até poderia ser agilizada, mas até chegar a quem tem a palavra final, demora, não resolve e pesam os interesses. Sem contar, que em alguns casos, há secretários com falta de competência na gestão administrativa da coisa pública. Quem paga é o povo, como sempre. Aqui abro parênteses, tem exceções, tem secretários que estão surpreendendo pelo lado positivo.
6 – A saúde é um grande problema em Jaraguá do Sul. Qual a visão do PDT?
RL – Várias medidas poderiam ser desencadeadas, sabemos que em Jaraguá há falta de médicos, postos de Saúde sem médicos e há pouco tempo veio à tona que existe uma demanda reprimida de consulta em torno de 12 mil, (claro que não é só desse governo) dentre eles, procedimentos operatórios de baixa complexidade, diria até corriqueiros “cataratas, endoscopia, ecografia e outros procedimentos, isto é um absurdo. Existem casos de espera de mais de ano e até agora nada, já houve comentários que de tanto esperar, pessoas foram a óbito, porque não receberam o tratamento que tinham o direito de receber (a Constituição Federal os garante), principalmente aquelas pessoas de baixa renda, os mais humildes. Isto é uma vergonha, não é admissível nos dias de hoje, na medida que vem evoluindo a medicina, vidas levadas sem que se ache uma solução. Se o dinheiro (carimbado) do orçamento da saúde não é o suficiente, temos que nos mobilizar na transferência de meios e buscar um maior aporte financeiro (Governo Estadual, Federal). Falta à administração municipal uma visão mais ampla com planejamento sustentável para a saúde, veja, esses problemas persistem mesmo tendo à sua frente uma pessoa com conhecimento (vice-prefeito é bioquímico e que já foi prefeito)é da àrea, mass, não o culpo, porque ele não tem gestão local plena, sei de seu esforço de sua luta e se tivesse a varinha mágica resolveria o problema. Porém, do jeito que está não pode ficar, medidas urgentes devem ser tomadas. Por que não é feito um mutirão à exemplo do que se faz na justiça? (quando há acumulo de processos) É preciso chamar a responsabilidade e juntos: Administração, Secretaria da saúde, SDR, Secretária de Saúde do Estado, Ministério da Saúde. Quando os administradores perceberem que sem saúde nada funciona, as coisas começarão a mudar. Estamos entre os 10 municípios brasileiros de maior renda por pessoa e cheios de problemas na saúde. É preciso ter uma resposta pronta para a demanda. Mais uma vez se comprova a omissão, a falta de gestão e falta de visão de investimento na questão saúde publica.
7 – E o problema da falta de vagas nas creches?
RL – Não posso ser demagogo! Trata-se de um problema “ad perpetuam”. Nosso município tem seus atrativos econômicos e isso traz muita gente. Nossa economia movimenta uma população grande de migrantes. Assim sendo, ao administrador público cabe projetar o município de forma visionária, porém, pé no chão. Não basta prover um projeto orçamentário, sem a devida previsão de crescimento além das necessidades, todos os anos o mesmo problema, falta de creches mães sem ter onde deixar suas crianças, ora se o crescimento se encontra na taxa de X por cento e não é suficiente, porque não projetá-la em sua dobra. Não é preciso ser um especialista para saber que o problema se arrasta há muito tempo, mas não é crônico, existe solução.
8 – E a questão habitacional?
RL – É a mesma linha de raciocínio. No entanto, a questão habitacional há um problema muito sério, tendo em vista que há um tempero muito forte da política, pois todo cidadão lotado naquela repartição, na sua grande maioria vai ou é deslocado com intuito de buscar dividendos eleitorais, e o que é pior quase sempre com o aval do executivo. Não é difícil de constatar, basta fazer um levantamento dos últimos anos do total das inscrições e os reais critérios que foram adotados, se isto acontecer haverá muita decepção. A contemplação e o direcionamento das ações não refletem a realidade, basta dizer da falta de planejamento, projetos inacabados, existe uma gama de recursos a serem buscados tanto no governo estadual como federal. Segundo dados existem hoje uma carência em torno de 4 mil moradias, então, planejamento neles, investimentos maciços em projetos não importando se Municipal, Estadual e Federal, mas repito é preciso agir com competência e planejamento. A realidade esta aí, já se passou um ano da última catástrofe que se abateu em nossa região e município, com resolução abaixo da linha do esperado, para não dizer zero, com migalhas lá e aqui. Pergunto? Qual o compromisso de nossos gestores neste caso? Estão se preocupados?, Se estão, estão fazendo em outro lugar, onde foi parar o dinheiro em torno de R$ 450,00 mensal/6meses, que seria destinado via ajuda humanitária, leia-se fundo social de ajuda que foi criado, para ajudar as pessoas que tiveram suas casas destruídas e que poderiam se servir desse fundo. Lamentavelmente pouco ou quase nada foi feito pelas famílias atingidas, que além dos prejuízos, houve o problema do emprego dessas pessoas, de quem é a responsabilidade? Do município!, O Governo do Estado transfere a responsabilidade e culpa à União, O Governo Federal diz que é culpa do Estado. O que é incrível é que até agora existem famílias que não receberam, qualquer ajuda, que dirá suas casas. Falta comprometimento, projetos não querem sair da gaveta, falta por em prática políticas públicas. A continuar assim, a necessidade está muito longe e o interesse político muito perto. Começa aí o grande erro.
9 – Fala-se muito em qualificação profissional...
RL – Quem quer progredir precisa qualificar-se, mas aí há uma questão fundamental: o modelo. Não adianta encher o centro da cidade de escolas de qualificação se a periferia não tem acesso. Hoje em dia, pesa no bolso do jovem ter que pagar o transporte para estudar. Imagine na atual situação, o aluno comprometer 40% do seu salário no transporte¿ Simplesmente ele não vai estudar. É preciso priorizar ações, bolsa de estudos para curso técnicos, cursos técnicos específicos dentro da carência local e levar a escola até o aluno. Por que não temos núcleos de qualificação, formação profissional fora do centro? E só um exemplo.
10 – Qual é o projeto imediato para Jaraguá do Sul hoje?
RL – Um projeto de estímulo para os jovens através de iniciativo do Poder Público que, interagindo com as empresas e o setor produtivo e econômico de nosso município, que tenha como objetivo ocupar em média 1.500 jovens prontos para trabalhar todos os anos. Ter uma visão macro de condomínio industrial, incentivos e de uso da mão de obra jovem que surge. O município não tem um projeto neste sentido e não oferece condições para isso. Isso não é falta de visão do futuro?
11 – Vem incomodando a população a questão de tantas verbas para locais onde o povo não tem acesso...
RL – É o assistencialismo! É preciso exigir a contrapartida e isso não acontece. Falta o lado social, o acesso para quem não pode pagar. O cofre público é o mantenedor de vaidades. Cria-se uma entidade e se pretende viver ás custas do dinheiro público. Vamos voltar à falta de visão, de ação do poder público. O sujeito pede a verba para a entidade, a prefeitura concede. O “dono” da entidade não reclama mais e a prefeitura fica satisfeita com isso. E não temos nem vereador para exigir a parte que é de direito da população.
12 – Como está vendo a administração do estado como um todo?
RL – Há um desgoverno! Todos viajam para que o apadrinhado assuma o governo, numa espécie de brinde pela fidelidade. Os deputados estão em campanha e esqueceram o resto. Pela sua importância no cenário estadual cadê a contrapartida e retorno de impostos para Jaraguá? Não tenho dúvidas em afirmar que Jaraguá do Sul não teve o reconhecimento que deveria ter desse governo, parece até que Jaraguá não faz parte do mapa de Santa Catarina. Há uma obrigação do povo catarinense de mudar em 2010, promover alterações, vamos acordar povo. Ora, o governo que deixa de fazer a lição de casa em 4 anos, certamente não iria fazer em 8 anos, acham que vão fazer com 12 ?
13 – E Jaraguá do Sul na Assembléia Legislativa do Estado?
RL – Faz tempo que não temos representante por falta de liderança política, de comprometimento com a população. O povo não quer nada mirabolante, quer ética, quer postura. Quem se apresentou não convenceu.
14 – E teremos representante eleito em 2010?
RL – Até agora só se apresentaram como candidatos os “chupins de autoridade”, que só pensam neles. Não temos novas lideranças, não se construiu projetos políticos e os caciques dos partidos aquartelaram-se e não permitiram o surgimento de novos líderes para que não perdessem o poder. Veja que o município vizinho Pomerode (Deputado Estadual e Federal) tem muito mais representatividade do que Jaraguá do Sul. Aqui só temos figurinhas carimbadas, é preciso repaginar.
15 – O PDT terá candidato para a AL?
RL – Claro! Teremos candidatos e na convenção do partido colocaremos nomes à disposição. Entre os nomes poderemos ter nosso nome, o Ronaldo Raulino. Mas vou falar desde já: só não aceitamos fazer campanha e ter como candidato majoritário, o senador Raimundo Colombo-DEM, nada pessoal, mas seria a continuação desse governo.
16 – E para o governo federal?
RL – Nosso candidato à presidência é o senador Cristovão Buarque. Tem compromisso, plataforma de governo, projetos para o Brasil e, um governo, não passa sem educação. Portanto, sem Dilma e sem José Serra.
17 – E para a Câmara Federal, temos chance?
RL – Ter representante na esfera federal é muito importante. Veja o exemplo do ex-deputado federal Vicente Caropreso, que fez um bom trabalho por Jaraguá do Sul e região. Teve um mandato digno e trouxe muitas conquistas para municípios catarinenses, independente de partido político. O Caropreso foi à Brasília para ser e foi um deputado federal de Santa Catarina, por isso é importante termos alguém lá.
18 – Eleições 2010, o que dizer para os leitores do blog?
RL – Acorde meu povo! Não reelejam ninguém. Cobrem daqueles que estão no comando, são nossos empregados e não devem ficar dentro das tocas estilo tatu e rindo do povo. Cobrem dos Vereadores, do Poder Executivo do Poder Judiciário a celeridade nas respostas de quem busca por justiça. Só mudaremos a atual conjuntura com cobranças, com pressão. Claro sempre pacificamente e no campo das idéias. Caso contrário, ficará tudo do jeito que está.
19 – E o Ruy em 2010?
RL – Continuo meu projeto de ir para o Legislativo, tenho um profundo conhecimento nessa área e acho que poderei contribuir em muito com trabalho e ações decorrentes dessa função política partidária. Vivo política 24 horas por dia e estou pronto para assumir um compromisso para representar os eleitores. Não tenho rabo preso e quero ser o divisor de águas. Vou defender o que sei fazer em benefício da comunidade.
20 – Sairemos da latente falta de lideranças?
RL – Sairemos! Até porque o povo está cansado de ver tanta coisa errada. Alguns políticos pensam ao contrário, mas o povo cansou da banalização da roubalheira, dos desmandos, dos conchavos, dos acordos feitos na calada da noite, dos políticos que só pensam em si. Sempre teremos esperanças, porque viver sem é entregar-se, concordar e isso não vai acontecer.
21 – Agradecimentos pela participação...
RL – Primeiramente quero agradecer, o espaço e a oportunidade que me é dada para falar da coisa pública. Talvez, não tenha conseguido expor tudo, porém, em linhas gerais seriam essas as manifestações para o momento. Dizem que acreditar na Política e nos Políticos é tempo perdido, no entanto, ainda que diante de tanta falcatrua, roubalheira, locupletação da coisa pública, vantagens, comissões etc... ah! ia me esquecendo do traíra, ainda assim, devemos acreditar na Política, pois do contrário, se nos afastarmos, maus políticos continuaram a usar as benesses dos poderes governamentais, portanto, vamos acreditar, o sistema é esse que esta aí. Povo, vamos buscar nosso espaço, um dia os homens de bem haverão de vencer.
Termino parafraseando o escritor Eça De Queiroz:
“Os políticos e as fraldas devem ser mudados freqüentemente e pela mesma razão”
Fonte: http://nemphodendo.blogspot.com/2009/11/entrevista-da-semana.html
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